Nesta noite, quando se abrirem as cortinas do Theatro José de Alencar, o público presente terá a oportunidade de fazer uma verdadeira viagem no tempo, numa espécie de regressão musical, chegando à aura sublime de Ludwig Van Beethoven. E é justamente para provar que a música clássica transcende o tempo, o lugar e o espírito que a Orquestra Filarmônica do Ceará (OFCE) inicia hoje o Ciclo das Nove Sinfonias de Beethoven. Revisitando alguns dos nomes mais notórios da música erudita, a OFCE realizará uma série de concertos ao longo do ano, apresentando as nove sinfonias de Beethoven e também obras de outros compositores dos períodos Barroco e Romântico. Beethoven representa justamente uma transição entre essas duas eras e é considerado um dos pilares da música ocidental. Nesta primeira apresentação serão executadas também as composições Brandenburgo nº 3, do também alemão Bach, e O Lago dos Cisnes, do russo Tchaikovsky. Sob a regência do maestro e presidente da orquestra, Gladson Carvalho, discípulo de Eleazar de Carvalho, a filarmônica realiza um projeto inédito no Ceará. “Vamos apresentar Beethoven porque ele representa todo um período revolucionário, um ideal de liberdade que precisa ser lembrado”, afirma Gladson. Segundo o maestro, fazer uma temporada executando composições de Beethoven significa para um músico algo como “se doutorar” na música clássica. A série de apresentações segue até dezembro, quando a nona sinfonia deverá ser executada ao ar livre, nas imediações no Theatro José de Alencar. Fundada em 1998 pelo próprio Gladson Carvalho, a OFCE nasceu com o objetivo de fortalecer a formação em música erudita no Ceará e propagar a música clássica pelo Estado. Músicos cearenses, que antes abandonavam a carreira ou precisavam sair do Estado para seguir na música, passaram a ter oportunidade no grupo. Atualmente, além de grandes concertos e espetáculos, a OFCE também se apresenta em lugares comuns, executando também composições populares: “As pessoas tem um distanciamento em relação à música clássica, por isso nós temos de ir até o público” defende Gladson. “Tem algo mais popular do que se apresentar em presídios ou em praças do Interior?”, provoca. Composta atualmente por 60 integrantes, a orquestra vem se destacando na descoberta e formação de novos músicos. Segundo Gladson, atualmente cinco músicos que iniciaram a carreira na filarmônica do Ceará estão se apresentando com grandes grupos na Europa. “Nosso trabalho é também social, pegamos novos talentos inclusive em áreas de risco e em cidades do Interior.” Indagado se acredita na popularização da música clássica, o maestro responde sem hesitar: “Mas é claro que sim”, diz ele, lembrando que antigamente a música clássica era executada em áreas populares no dia a dia da Europa. “A arte é do povo e para o povo”, defende. Apesar do caráter cultural e humanitário, sem fins lucrativos, o papel social da OFCE é limitado pela falta de incentivos públicos e também da iniciativa privada. Sem investimentos, a orquestra, que não possui nem mesmo um espaço ideal para ensaios, tem reduzida sua capacidade de atuação em prol da cultura e da cidadania, conta Gladson. Segundo ele, as poucas doações de pessoas e empresas e o incentivo cultural que recebe do Governo do Estado ainda representam pouco para suprir as demandas, fato que, segundo ele, pode comprometer o próprio futuro da orquestra: “A orquestra não sou eu, não quero visibilidade, o que eu quero é cultura e cidadania, por isso chamo a sociedade para participar desse movimento”.